Governo terá de acomodar novas despesas no Orçamento em meio à alta do dólar e dos juros futuros; capacidade de compra das famílias dependerá da inflação, da renda e do emprego
Por Oseas Araújo
Editor-chefe do NewsPE
27 de outubro de 2026
A reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) abre uma etapa decisiva para a economia brasileira. Depois de uma campanha marcada por anúncios de benefícios sociais, subsídios e programas de crédito, o governo terá de apresentar como pretende manter as medidas e cumprir novas promessas em 2027, sem perder o controle das contas públicas.
O desafio aparece em um cenário de dívida elevada e de incerteza sobre o rumo da política fiscal. Na segunda-feira (26), primeiro pregão após o segundo turno, o dólar comercial fechou em torno de R$ 5,40, com alta superior a 8%. O Ibovespa, principal índice da Bolsa brasileira, recuou 13,88%, e os juros futuros também subiram.
A reação refletiu tanto a reversão de apostas feitas por investidores antes da eleição quanto preocupações sobre o financiamento das promessas de campanha. Seus efeitos sobre a vida da população dependerão, entre outros fatores, de quanto tempo durar a pressão sobre o câmbio e os juros.
Se o dólar permanecer mais alto, produtos importados e insumos utilizados pela indústria e pela agricultura poderão ficar mais caros. Se as taxas de juros continuarem elevadas, o crédito tende a pesar mais no orçamento de famílias e empresas, dificultando financiamentos, investimentos e consumo.
O tamanho do pacote anunciado
Levantamento da CNN Brasil aponta que as medidas anunciadas ou ampliadas pelo governo durante o ano eleitoral mobilizaram cerca de R$ 298,4 bilhões em 2026. A conta reúne iniciativas de diferentes naturezas, como benefícios, subsídios, desonerações, linhas de crédito e reforços a programas já existentes.
O valor não representa, porém, um gasto direto de quase R$ 300 bilhões já pago pelo Tesouro Nacional. Parte do montante corresponde a recursos previstos para financiamentos e operações de crédito, cujo custo efetivo para as contas públicas depende das condições de cada programa.
Em levantamento anterior, divulgado às vésperas do segundo turno, a CNN estimou que R$ 185,7 bilhões do pacote tinham natureza financeira, destinados a apoiar programas de crédito, inclusive nas áreas de habitação e veículos.
Entre as medidas estão o aumento do benefício mínimo do Bolsa Família de R$ 600 para R$ 691, subsídios para reduzir os impactos da alta dos combustíveis, a ampliação da isenção do Imposto de Renda para quem recebe até R$ 5 mil por mês e ações de renegociação de dívidas. O levantamento também inclui o programa Gás do Povo e iniciativas de financiamento habitacional.
No caso do Bolsa Família, a equipe econômica estimou um custo adicional de R$ 5,8 bilhões em 2026 e de R$ 22,7 bilhões em 2027. Os valores são estimativas e não representam, necessariamente, o total já desembolsado.
Promessas exigirão espaço no Orçamento
Além das medidas anunciadas durante o ano, o governo terá de detalhar o custo e as regras de propostas apresentadas na campanha, como a tarifa zero no transporte público aos fins de semana, iniciativas para microempreendedores e a expansão do Pé-de-Meia. A implementação dependerá de recursos disponíveis e, quando necessário, de aprovação do Congresso.
O Projeto de Lei Orçamentária de 2027, enviado pelo Executivo ao Congresso, prevê um superávit primário de R$ 18,6 bilhões. O resultado primário considera receitas e despesas antes do pagamento dos juros da dívida pública.
Como parte das medidas foi anunciada depois do envio da proposta, o Ministério do Planejamento informou que o governo prevê remanejar cerca de R$ 20 bilhões no Orçamento de 2027 para acomodar despesas. O aumento do Bolsa Família está entre os itens que exigem adequação.
Remanejar recursos significa alterar a distribuição de valores prevista para o próximo ano. A definição de onde virá o dinheiro e quais áreas terão suas dotações revistas será um dos pontos centrais do debate no Congresso.
O ministro da Fazenda, Dario Durigan, afirma que as iniciativas são viáveis e que a previsão de superávit para 2027 está mantida. Segundo ele, o governo trabalha com prioridades orçamentárias e receitas adicionais para financiar as medidas.
Juros futuros e dívida sob atenção
A alta dos juros futuros após a eleição revelou a exigência de remuneração maior por parte dos investidores diante das incertezas sobre a economia. O contrato com vencimento em janeiro de 2031 encerrou a segunda-feira em 15,185% ao ano, segundo a CNN Brasil.
Essas taxas são negociadas no mercado e não devem ser confundidas com a Selic, a taxa básica de juros. Ainda assim, quando permanecem elevadas, podem influenciar o custo do crédito e dos novos títulos emitidos pelo governo.
A dívida bruta brasileira estava em 82,9% do Produto Interno Bruto (PIB) em agosto de 2026, de acordo com dados compilados a partir das estatísticas do Banco Central. O indicador relaciona o tamanho da dívida com a riqueza produzida pelo país.
A evolução dessa dívida depende de fatores como crescimento econômico, arrecadação, despesas e juros. Se o custo de financiamento continuar alto, o governo poderá ter mais dificuldade para abrir espaço a novos investimentos e programas.
Dólar e poder de compra
A valorização do dólar pode chegar ao bolso do consumidor por meio de produtos importados e de custos de produção. Combustíveis, fertilizantes, equipamentos e matérias-primas estão entre os itens que podem sofrer influência do câmbio.
O repasse, entretanto, não é automático nem ocorre da mesma forma em todos os setores. A duração da alta do dólar, a concorrência entre empresas e as condições da economia também influenciam os preços.
O Banco Central avaliou que ainda é cedo para medir os impactos da disparada da moeda americana após a eleição. Será necessário observar se o movimento persistirá e como ele se relacionará com outros indicadores econômicos.
Para a população, a questão principal será saber se salários, aposentadorias e benefícios conseguirão acompanhar o custo de vida. Um aumento na renda pode aliviar as despesas das famílias, mas seu efeito diminui se alimentos, transporte, energia e outros itens essenciais também ficarem mais caros.
O que esperar de 2027?
A proposta de Orçamento enviada ao Congresso estima salário mínimo de R$ 1.741, crescimento econômico de 2,46% e inflação de 3,6% em 2027. Esses números são projeções utilizadas na elaboração do projeto e podem ser revistos.
A evolução do salário mínimo será acompanhada por trabalhadores, aposentados e pensionistas que recebem o piso, além dos beneficiários do Benefício de Prestação Continuada (BPC), cujo valor é vinculado ao mínimo.
Embora economistas discutam alternativas para conter o crescimento das despesas públicas, não há base para afirmar que esses benefícios serão cortados ou encerrados. Eventuais mudanças dependerão de propostas oficiais e das decisões dos órgãos competentes.
O governo começa a preparar 2027 diante de uma escolha que exigirá números claros: como preservar programas importantes para milhões de famílias, cumprir as promessas feitas durante a campanha e, ao mesmo tempo, indicar de onde virão os recursos necessários.
A resposta terá reflexos sobre a confiança na economia, os juros, o crédito, os investimentos e a capacidade de compra dos brasileiros.
Fontes: Ministério do Planejamento e Orçamento; Congresso Nacional — Orçamento de 2027; CNN Brasil; Agência Brasil.

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